Thursday, July 25, 2013




……….

Fico esperando a tela carregar como se houvesse novidade, 

nesse meio tempo ardem as expectativas, 

não há nada e,

pronto, 

chegamos a uma conclusão:

perda de tempo.

……….

esperar que algo aconteça e tome um espaço no meio de suas expectativas desgovernadas. a pessoa muda de roupa, a pessoa corta o cabelo, a pessoa se esparrama, a pessoa muda suas atitudes numa tentativa de auto descoberta, exposta ao mundo, esperando reconhecimento social. pessoal. a pessoa bebe. a pessoa para de beber. a pessoa fuma. a pessoa para de fumar. a pessoa deita. a pessoa nunca mais levanta. a pessoa deixa de ser, a pessoa se evaporou (e seus pensamentos sopraram no ar).

agora vamos ao universo, pulso negro, estrelas longínquas, pedaços de pedra que brilham, consciência dum espaço misterioso, incerto, infinito como medida de grandeza, lua satélite, velocidade da luz, o som sônico sem deixar rastros, o olho biônico da pupila chamuscada, um raio qualquer ocupando uma antena qualquer em cima de um prédio qualquer, nuvens, balões de imaginação e objetos voadores não identificados, o quê acende e apaga, esse tal dia que tive medo de et e você apareceu na janela com os cabelos molhados, saindo do banho, andando nua no jardim, a grama brilhando.

……….

ardem as expectativas?

pronto, chegamos a uma conclusão:

não há nada e fico esperando a tela carregar como se houvesse,

perda de novidade,


tempo.

……….


 

Thursday, July 18, 2013



A carne, a unha da carne, a pele debaixo da carne da unha.
O sangue segue o fluxo, circula o corpo, irriga a ponta do
dedo, o sangue da unha da carne debaixo da pele, na boca do
sujeito.

A raiva, a ansiedade, a fome que não sacia, um pedaço de pele morta na boca do sujeito descontrolado, viva.

O dente, osso, magnésio, mastiga a comida, despedaça a
unha, a carne, misturando a saliva ao sangue, a saciedade dum pote de ânsia debaixo dos dentes.

O aparelho digestivo, complemento biomolecular da alma desenformada, traduz ânsia em ondas, sinais elétricos em estímulo, o corpo que alimenta e transforma a ação do invisível digerindo o resíduo energético mastigado, desmascarando a alma sem forma, faminta, saciando-a pouco a pouco.

A palavra que escapa, linguagem, tradução falha,
o corpo elétrico, energético, digerindo o todo, a alma sem forma, sem toque, linguagem audiovisual,
pixels, layers, ondas, notas, grãos de prata, areia, alcance e projeção imaterial dos sentidos que
desconhecemos.


o que significa o homem?

.....

mastigar a carne crua - reflexões de uma vaca, imposição humana.

(sebastião josé alves da cruz almeida - fósseis, resíduos, hominídios - 1456).




Saturday, July 13, 2013



(el dia de los muertos)

Ela me faz rir. Rir bastante. Ela é irônica e perspicaz, e eu me sinto babaca babando nela. Desse jeito. Pensando que talvez ela seja o quê não é, e representando a dura missão de ser ela mesma, mal saiba quem seja, e o que faz. Medo? Talvez seu ego seja ela, e o ego não é nada além de uma  

Pedra. Fico pensando que talvez haja esperança nisso tudo se o amor deixar de representar a morte, depois que o amor morreu. Que meu amor morreu. Que o luto dessa morte se apossou do meu amor depois que [+ uma vez] os planos não deram certo, os sonhos não se tornaram outra coisa [pois, não se realizam] e ainda penso nela, naquela noite, na chuva, no vinho avinagrado, no som do corpo pintado e só vejo a imagem do outro lado da tela, não falo com ela. Me borro. Tenho medo, a rejeição é a morte e não quero mais sofrer dum mal que já sofri: me preservo, imagino que poderia ter sido, ser, fosse, fico na minha expectativa de um dia sair desse abismo, mas abraço meu medo, 
abraço a morte,  prefiro não arriscar a posse- (o amor) - do que me resta.

...

Sorrir, desejar, sentir, sonhar, vivenciar essa porra toda que tento evitar. 
Dialogo com ela no espelho invisível, desarmo toda carapuça, penso no impossível. Dialogo com ela como se houvesse conversa, mas ignoro a realidade palpável e gostaria que fosse de outra forma, hoje só existe uma (por enquanto).

...


Aquele anel que ela falava. Esse buraco que carrego. Símbolo oculto, bravura escondida, confiança esbanjada, isso que pinga em um e rebate no outro. Esse papo todo de louco que ninguém compreende, excluindo você, e eu, somos tão poucos:
é disso que estou falando.

...

 Se(r) alguém que(r) compartilha(r)?

Não sei- não sei o que quero e nem como evitar o que não quero. 
Complico o que já é difícil, ligo a cabeça, desligo a tv, dou um gole de Porto e ouço o peito em ebulição, penso que assim o destino me trás o que preciso, e um dia isso (ser)vir(á) outra coisa.

Hoje não sei.


Tuesday, June 25, 2013

...





Sonho com ela, essa moça sem rosto, essa flor sem perfume, essa parede sem cor, essa música silenciosa.

Olho pra ela e não vejo nada, não estou ali, refletido em coisa alguma, despertenço com toda fluidez.

Rezo, mas não há simbolismo oculto; Desejo, mas não há significado; Traduzo, mas não há linguagem.

Despertenço, desmaterializo, desfaço, descontruo, destruo, desobstruo, desobedeço, descarrego, danço. 

Não há nada que se possa fazer quanto a humanidade limitrofe, somos como somos, todos parte do mesmo, buscando diferenças como propósito quando o que delimita deveria acrescentar, ignorando o altruismo, sem saber o quanto queremos fazer parte disso e o quanto queremos deixar de fazer:

dia D

existência

(Murille Savage, Lille, France, 1967)


Wednesday, June 12, 2013


....................................................

Ela é esquisita, um ponto fora da linguagem. Da minha linguagem. Ela tem o cabelo meio raspado, já não tem, ela fica trocando de roupa e sendo uma personagem, e outra, outras tantas. Ela lê o texto devagar, e rápido, ela alterna os tempos e parece uma portuguesinha falando (gosto de ginja e de lisboa). Ela tira a roupa, eu enlouqueço, ela põe a roupa, eu enlouqueço, eu olho pra ela, eu enlouqueço, e ela não entende nada, talvez porque não me veja. Não, ela nem sabe de mim, que estou aqui a procurá-la nem sei bem onde, nem sei porque, ela ignora que fico tentado a descobrir se ela vai aparecer,e eu já quase pergunto diretamente pra quem sabe, mesmo sabendo que é uma idéia de merda- Foda-se. Eu nem sei se ela é sozinha, gosta de alguém, gosta de homens, ela tem cara de gostar de problemas, é, tem mesmo e eu gosto de garotas assim, mesmo sabendo que sou meio bronco, e não deveria gostar. Talvez eu goste mesmo dos problemas e por isso me coço, não sei ser de outra forma e nem devo ter muito interesse em saber, deixa pra lá.

Ela entrou com aquele batom vermelho, meio magra, magra e macia com uma camiseta cortada do sonic youth e pensei quem diabos era ela, ali, entrando, só consegui saber seu nome e depois empolgamos alguns grupos com a apresentação, sabe, ela ali e eu queria era me aproximar, mas não deu, tive que focar no que tinha que focar, sabe? Não, não, e daí essa merda toda, essas afirmações não nos trazem a satisfação que buscamos, que diabos, um monte de gente ciscando e eu lá, nela: sei lá. É, um papo de palerma, mas não importa, todos precisamos disso em alguma medida, seja combatendo a solidão, na busca por afeto, ou algo assim, somos produto-palerma em muitas medidas.

Ela segura o rosto, passa a mão no cabelo, parece atriz. Ela tem as mãos finas, bonitas, e rói a unha. Ela passa pincel no rosto e fica maquiada. Ela põe o sapato, tem uns pés bonitos, gosto. Sei lá, acho que hoje vou no teatro. Ela passa o batom e diz que vamos descobrir alguma coisa. Não sei se vou, está chovendo. Ela é divertida, mostra a orelha, que engraçado. Depois mostra o joelho, eu um sorriso. E assim vai, agora ela está andando e foi promovida a garota com o mais fino humor nesse segundo, só porque anda, e sabe fazer isso como ninguém (carregando meu olhar no movimento, se você não entendeu). Agora ela pula, mas já não é tão engraçado. Ela é artista atriz e ladra de estética e de personalidades e referências, todos somos. Agora eu olho pra mim, olho e não vejo nada que me agrade, penso que sou muito chato, incompreensível, analítico. Então ela se joga, se espatifa, faz muito barulho e, de repente, se deita: deita calmamente com um vestido branco, sinto seu cheiro de flores brancas como se estivesse aqui, do meu lado, jasmim nesse vazio que grita, mas ela nem sabe... Nem sabe disso, de mim, do meu olhar, do meu cheiro, do meu corpo, do meu som, de porra nenhuma, nem uma idéia de quem eu seja, exista, ou qualquer coisa que escape. Nada.

- Sim, ela está aqui.
- Quem é ela?
- O que pode fazer?
- O que quer?
- Porque se move assim?
- Como se move assim?
- Olhe pra ela. Olhe pra ela agora. Agora a música acabou. Não tem mais música.

Ela é esquisita, um ponto fora da linguagem. Da minha linguagem.

Ela é chata. Insuportável. Ególatra. Exibida. Tudo que quiser que seja, e desagrade. Todos defeitos que eu julgar necessário e quiser por, projeção do que listo, incomoda e não é digno de lisonjeio.

Ela é esquisita, um ponto fora da linguagem. Da minha linguagem.

Ela é quente, macia, gostosa. Linda, delirante, lunática, impiedosa. Ela é tudo isso, e me perco.

Ela é tudo o falta, e sempre faltará. Ela me completa, e sempre será dessa forma. Ela não cabe em definições, talvez porque não as tenha. Ela passa longe da ótica da obviedade, traduz o que escapa. Ela. Será Ela?

Acho que vou ao teatro, está chovendo, eis a surpresa final: a escova de dente, as bolhas de fluor e tudo que eu buscava, não há explicação.

Talvez seja o pequeno ponto branco no centro do seu coração, o anel branco do lado preto do casaco que ela ignora o significado, eu sei.

(e ela ainda nem conhece).

....................................................




Tuesday, June 04, 2013





você quer tirar a roupa dela. não, você tira a roupa dela, como tirou tantas outras roupas. você beija o corpo dela, como beijou outros mil corpos, mas nunca é igual, duas mulheres nunca serão iguais, mil mulheres nunca serão iguais, uma não é igual a outra, tudo é mistério, uma é o mistério da outra, as mulheres nunca são iguais como um homem se parece com o outro, nenhum se liga na metade das coisas que as mulheres significam, quem se importa?
tirei a roupa dela, beijei todo seu corpo, trepamos, apertei todo aquele corpo e dormi com meu rosto espremido no seu pescoço. acordei, apalpei seu corpo, massageei seu corpo, trepamos mais uma vez, foi lindo, como muitas outras vezes, mas bem longe das tantas outras tantas que não passaram de nada. disse coisa bonitas, ouvi coisas bonitas, como outras vezes e sabia que, sim, era tudo de verdade, seu cheiro, seu gosto, seu corpo, minhas mãos, tudo, mas… não há mais, um dia soube: não minto, hoje o amor tem a duração exata dos compassos de uma noite, de uma bela trepada, de um oi fulgaz sem longo adeus, intenso, mas logo se perde e fico tentando resgatar o sentimento que escapa e de nada sei, passa: vejo corpos, vejo almas, vejo espíritos, vejo sorrisos, sinto tudo, sou o rei da sinceridade, mas tudo passa rápido, imediato e irreal, coisa alguma, não reconhece duração maior do que a que escapa a esse verso, e de pronto torna-se outro na mudança de luz- dia, noite, dia, noite, versos, versos inversos, reversos, decupagem… desejo, mas quem sou, o que quero? fidelidade não sei (o que significa). glasgow. londres. lisboa. vigo. wrexham... países, acentos, verdades, mentiras, cores de cabelos, olhos, pelos, pele, cheiros, gostos, peitos…as que tive, as que negaram, os instantâneos lindos do meu quebra-cabeças, amei todas sem mentira, sem mais ou menos, num saber solitário.

[...] me convida pra acordarmos juntos, fumar, beber, dizer que me deseja, sentir saudades, me xingar, me chupar, me chutar do seu quarto, ou cortar essa, sei lá. sem ódio, sem dramas, com gosto de surpresa, empolgação, desejo de novos ares, inspirar e expirar verdades sem expurgos de falsidade, falsas vaidades, só fantasia, esqueça o amanhã, isso tudo, intensifica sem tempo, sem época, sem rumo, pois passa como um sopro de baker, só agora sem antes nem depois, nem nada, só isso. sem choro, sem lamento, só perfume e seda, sem pecado ou religião, sem pobreza de espírito ou nada que explique: impaciência, ansiedade, insegurança, nada disso, contrário de porra nenhuma, estou cansado, tão cansado, uma lágrima que não cai, a palavra que não sai e terminamos por aqui, como seu eu fosse tudo isso, e àquilo, que não sabe significar, digno de admiração e indefindo… você me quer, queremos trepar, eu por perto, longe, morto, sorrindo, partindo, como sabe (que sou), um sorriso estranho, uma felicidade, um motivo, um momento- outro, e te quero como a nenhuma outra, meu amor, essa é minha ode, mais forte e verdadeira do que todos os cãos que te lamberam, foderam e prometeram mil potes de mel e só te deixaram veneno, não me rendo e não se esqueça de mim e só, assim somos (e)ternos e duramos o quando podemos- (me)(te) ame. egoistas natos, solitários, verdadeiros e diferentes, o que resta quando colocamos a cabeça no travesseiro, descansamos e acordamos (n)outro(s).

meu bem, não se esqueça, nunca se esqueça: ame, me ame como se eu fosse o ultimo e o primeiro.

Tuesday, April 23, 2013



.....

perder-se é encontrar-se em mil pedaços partidos no solo e juntar os migalhos pacientemente:

pouca coisa pode ser mais bonita que a recomposição daquilo que se quebrou/rompeu
em algo rarefeito e se refaz mantendo a própria essência.

todo ser humano é digno de abandonar o que não precisa carregar, (se) perdoar, olhar pra si, ser humilde e reconhecer quando se equivoca, só não há perdão para aqueles que não se permitem
dar um passo para trás e se recompor sem arrogância ou afetação -

maior pureza que o verdadeiro arrependimento e a busca pela reconstrução não há,
é no consolo que um bom coração dá vazão a luz.

......

'histórias das cores do prisma, fragmentos de um coração de papel', editora nullman, 1994,
fabbrizio gofrinni.


Friday, April 05, 2013





----milindagacões---

escolha a palavra e substitua no poema, brinque de ser poeta,
como se fosse, você.

brinque você como se fosse poeta a palavra substituída no poema.

substitua você como se fosse o poeta no poema da palavra.

poeta substituido brinca com o se do poema, palavra foi-se,

problema.

---

----decorpoealma---

tudo é questão de ordem, e postura: realinhe sua sua coluna cervical,
seja firme, mas maleável, dobre e deixe-se dobrar, estique e verta-se
para si mesmo percebendo que todo esse encaixe de magnésio (osso)
e sua durabilidade como sedimento secular (caveira, pedra, gesso) 
pode agir como se morasse num mar com mil células (organismos marítimos) compartilhando graças, numa combinação mutualista desencadeando flutuação.

fosse assim sempre (só leveza), ao menos quando vivo (biomolecular consciente), e isso calaria perfeitamente minhas angústias quanto a dor nas costas.

--------

nem tudo é como parece,
você existe dentro de mim, 
universo,
e somos mesmo 
essa consciência de nós,
possibilidades aleatórias de eu's e vocês, 
- n u t  z -
onde tudo,
mesmo os seres em extinção,
jamais desistem e
se proliferam:

espuma do mar.

--------

estou tentado a rimar
[b com a] 
para provar
que talvez
não valha a pena
fazer a lição de casa
já que ordem da vida não altera
os resultados instáveis das
uniões casuais
afim de
perpetuar-se como raça.

portanto,

nem tudo é como parece, e distante
como se vê.

----------

portanto,

 como tudo se parece,
não há distância,
 como se vê.

-----------



(burceteoplatismo cenil da índia amazônica - gaspar toledo, 1976 - galeria isias maia)


Thursday, April 04, 2013





espírito selvagem 2013

um homem
num carro
em são paulo
atropela
na rua
um sujeito,

[[[andava de bicicleta]]]

dois homens
num carro 
em são paulo 
e um braço 
descolado
no banco de trás,

[[[andava de bicicleta]]]

um homem
num carro
em são paulo
atira o braço
num córrego
putre e infestado,

[[[andava de bicicleta]]]

sujo de mijo de rato
um pedaço humano é levado
rumo a origem do fato,
lá jamais será costurado
como se fosse todo retalho de
um espírito desgovernado
chamado de homem
vestido de carro

nesse raio 
um pedaço de máquina
se sobrepõe a consciência
biológica do braço,
já não coça a cabeça
nem coça o saco
já não sente necessidade
de existir como pedaço
de nada e ninguém:

já não serve
como denúncia
da selvageria,
mas atestado de podridão
do espírito cinza chamado de
homem
carro
ou grande cidade

Tuesday, January 29, 2013





Versos em cinzas e num copo de saquê,
confundo os sentindos tentando compreender,
quanto mais te vejo, mais pergunto porquê?

num maracujá retirado da casca, amarelo e preto
num abacateiro fim de tarde, rosa e verde,
na melancia azul e no branco do ipê,
pela lua prateada, procuro você

…..

a maré dos vai vens nos trouxe pra cá, 
nesse canto da praia, escondidos do mundo,
uma canoa, um silêncio e nada,

as ondas quebram na pedra e esculpem
um sonho,
passeiam a toa pelo cheiro de mato, 
enquanto isso fazemos amor
plantando esperança num mundo
tão frágil, 
linhas e teias,
vento de praia,
palmeiras e cocos,
tela duma coleção
de caiaques,
esse que remei por toda vida
até chegar na margem do rio pra te
pegar,
mas você se foi,

não compreendo.

…..

Versos da ressaca de um copo de mar de saquê,
uma série de cinzas, 
  lágrimas esculpidas numa cidade de pedra
e isopor miniatura,
tudo é confusão:

apesar de tudo, você não foi.

devemos estar confundindo as coisas,
ou não

sabemos o que fazer.

um universo amarelo, preto, verde, 
manga rosa abacateiro e pitanga,
branca lua dum dia prateado,

cabe você

…..


------> desoriente [noite oriental].

Saturday, January 12, 2013



As vezes pensa-se que uma coisa acabou mesmo bem antes de começar,
as vezes tem-se a impressão de matar as sementes antes que possam germinar,
as vezes tem-se a certeza de se haver cometido uma estupidez como auto-sabotagem,
as vezes perdem-se os sentidos numa vontade incontida para elocubrar um silêncio,
as vezes fazemos tudo errado, mesmo querendo acertar.

Quando nossas falhas são expostas aos olhos do céu e um raio de sol fura a pupila, lidamos com as consequências,

as vezes os erros se convertem em aprendizado, ou a estupidez em raiva e descontrole,
as vezes somos capazes de dar a volta por cima, outras vezes nos apegamos ao erro e ao
sofrimento como resposta,
as vezes somos observadores passivos de um amor que parece ir e vir sem mais nem menos
e queremos somente fechar os olhos e poder começar tudo de novo.

Entre sorrisos, soluços e lágrimas, acenamos para felicidade, abraçamos os infortúnios,
guiamos ou deixamo-nos levar, sempre respirando fundo e seguindo em frente - para onde, afinal?

No fundo somos isso tudo nesses todos, razão (des)informada, vazão aberta,
uma questão de ponto de vista, projeção imaterial de uma substância chamada alma.

O amor funciona como redenção, esperança, impulso e força para
encontrarmos o melhor de nós, para nós mesmos e para aqueles
que queremos bem.

O amor não é posse descabida, controle ou aprisionamento, o amor não é satisfação egoísta, auto afirmação ou um troféu a ser exibido, o amor transcende, supera, embeleza a natureza sem maquiagem e é capaz de salvar qualquer ser, lidando com toda franqueza com as fraquezas e estando sempre
disposto a dar e receber força e esperança:

o amor reside na capacidade de, incondicionalmente, querermos bem a tudo que possuímos
e deixamos de possuir.

-----

arnald moustard, sgt do regimento francês balístico, discorre sobre o sentido da vida.

(foto cuville, f).

Thursday, December 27, 2012



Fim da estação, mais um ano partindo pra algum lugar na memória, um segundo numa imagem que reaparecerá talvez numa pedra, talvez num pomar, não sei.

Seus olhos pretos, suas pintas escuras, sua pela morena, seus pelos negros, seu busto empinado.

Começo de ano, esperando pelo que virá a ser, pelo que está virando pro meu lado e, no horizonte, a vastidão da palavra esperança enche mares de lágrimas, segura todas árvores de uma floresta, barro batido por mil patas de cavalo, mato mordido pelo macaco, amarelo transformado em potes de trigo, brisa-esperança que sopra atrás do pescoço.

O Amor é um lugar, como um país, uma cidade, uma vila, uma casa, um lar ou um rio.

O Amor é um porto, seguro pra quem acredita, cantado por quem necessita, esquentado por quem o habita ou quer habitar.

E os dias seguem passando em um tempo invisível, sob plumas e pétalas, sob um aroma rosa-alaranjado, sob os beijos que vem e os que nunca chegarão a vir; sob lágrimas e palpitações, a duração penosa de um nada; sob sorrisos intermináveis, o tempo todo esticado, completude: o que possa dar dimensão e expandir o significado de ser, estar e permanecer.

Com ou sem Deus(es), como Natureza frágil ou exuberante, como resposta para as perguntas abertas ou deixadas nos cantos silenciosos, é preciso lidar com a solidão e preencher o eco ininterrupto que carregamos no centro do peito, ao longo da existência, para poder amar, e ser amado.





Sunday, December 23, 2012





Ela faz as cores trocarem de lugar, e quando olha pra uma coisa escura, esclarece, quando olha pra uma melhor iluminada, brilha ainda mais intensa. Ela faz o rufo peitoral soar mais alto, e ao encostar a cabeça pra escutar, ou segurar no pulso pra verificar o batimento, a intensidade aumenta produzindo um som proporcional a um acontecimento de altura traduzido numa onda grave gigante, bem maior que qualquer coisa que veio antes. Assim, suscetivamente, as percepções que tendem a se acumular e se substituir periodicamente sem maiores alterações, sobressaltam, destacando  a partir de então presença em qualquer nuance, porque as nuances estão aí para provar que nada, nem um minuto, nem um segundo, nem um, nada, é igual a outra coisa, e vivemos quase assim, sem saber direito o que está acontecendo.

Ele sente tudo como mais vasto, e também sente o corpo enraizado, e até mal sente, por não estar acostumado a lidar com sentimento. Ele sente o dia inteiro ela, como uma química invisível, como uma idéia que flutua, leveza de ar como brisa no rosto. Ele nota que tudo faz sentido e se encaixa num quadro maior, feito de peças que não se encontram de acaso e ajuntam naturalmente, uma choupana  quente de cor amarelo alaranjada.





futuro dias deverão,
...................................


Vitamina C, praia, ventilador, areia, livro, violão, deck, praia, chinelo, óculos escuro, biquini, barraca, esquece, esquece, biquini, barraca, Vitamina C, Vitamina C, V C, chinelo, óculos, sol, olhos fechados, brisa, brisa, barulho do mar.


..................................

passados dias, verediam.











Sunday, December 02, 2012


Boletim:

Seus braços estavam queimados, a cabeça chamuscava,
mil idéias repartidas em nozes quebradas por um martelo
de ferro num pote de barro com mel.

Alimentar-se do sagrado, clarificando o que se profana, debaixo
dos panos, nas esquinas opacas duma rua deserta, cheia de
folhas, outono, dias de inverno, devora as paredes
internas como forma de estranho, atordoa as víceras 
e causa mal estar passageiro, age ainda sem elegância,
mas cresce com bastante naturalidade.

Tudo isso coube, quando soube, pois, que era tarde demais,
em seus dentes escorria o mel das abelhas, e as nozes dos
deuses, e da sua fenda a fertilidade de flores avermelhadas,
que ao banhar-se na luz da lua do céu estrelado 
concebeu uma criatura pura, pintura, arte da lua, luz que ressoa,
talvez responda a tantas dúvidas estranhas, tá prenha.

Estás escorrendo pela pele, vermelho e queimando como quem acredita no
que até Deus duvida, disseram-lhe, estava transbordando. Não, não seria uma boa idéia,
a solução pra todos os problemas, uma concepção segura; não, não seria como deve ser,
mas tudo enrolado, distanciado, tudo tão raro, tudo tão duro.

Ele disse por ela, 

Te desejo felicidades.

Ela disse pra ele, também.

E foram se buscar por aí, em algum lugar invisível, caçando respostas com uma rede,
resultando numa grande interrogação que informa mudanças de paradigma, dizendo
em forma voz de gás hélio que se tornaria provedor de uma nova alma, embora ainda
sejam precisos ajustes. Escutou uma voz lhe dizer e desde então vem sendo bastante
borra botas.

Thursday, November 29, 2012




Oblivión:

- soy raro, vós

- sí. y ¿que pasa?


….

Eram quase duas manhã quando ela abriu a porta e o convidou pra entrar,
estava de penhoar, atravessou o pátio florido e lhe ofereceu algo pra tomar,
- sí, alcoolico,
misturou zumo de naranja,  hortelã, três gelos e mexeu,
pôs em suas mãos, perguntou que tal, estava bom, mas ela não se deixou convencer,
disse que àquilo era fanta e não zumo.

Já havíam passado pelo quarto, logo foram pra sala, ela partiu pra cozinha e pediu pra que não a seguisse,
saiu lá fora pra pendurar as roupas, estava com os cabelos mojados,
voltou e foi pro quarto, pediu pra que permanecesse na sala,
mas enquanto se vestia, ele cortou o barato e entrou, pronto fue echado
e novamente encontrou seu drink.
...já de volta, ela lhe disse que parecia nervoso,
vai ver estava,
pegou seu drink e tomou.

Tinham se esquecido de algumas coisas ao longo do tempo e pelas impressões,
sí, estavam cambiados,
a querência, não.

Elogiou suas mãos enquanto sorria, 
levantou a masajear las espaldas, que dolian e
atravessando suas costas y tocando la piel con propriedad
pôde ver los senos pela fenda da vestimenta até que em determinado momento.
não se sabe ao certo como, estavam atracados.


Entraram no quarto, tiraram as vestes e
acenderam o abajur anaranjado y ¡la pegación!  iniciaron
Pouco há de ser dito, nada mais fazia sentido,

una música de toques, mordidas, arranhões e lambidas
una música de violência, explosão e rompimento,
una música de falta, afeto,
fricção de claros e oscuros,
baixo clero e agudos,

lindo tema duma noite portenha.

……

(ela)

Deu-lhe um ramo de flores vermelhas
feitas de um guarda-chuva de enfeite
resignificadas em pedaços de afeto
num drink de laranja, gelo e hortelã.

……..

(ele)

Deixou-lhe as flores e um bilhete
pedindo pra que as regasse diariamente com água de mel docinho,
assim o coração seguiria batendo con vitalidad  e que volte logo,
a verla numa hora dessas.

……….

bandoneon
cello
piano
y bajo

.......

--pietra y blanco--

 :

encantamiento roto:

le falta confianza,
su corazón está roto.

𝄞

encantamiento resurgido :

no le falta nada,
su corazón está rellenado.

....

Todos te querem,
mas o que quieres,
¿usted?

……….

caminante del infinito   

...........