Sunday, October 28, 2012


N_na:

Noite, clima agradável, lugar e música boas, moças bonitas. Você, bem, fazes tudo certo e ouve buchicho de quem por, casualidade, cruza seu caminho, 'ai, é uma pena que estou casada': seu ego festeiro balança, a felicidade comparece, mas não, nada além de um sorriso, pois você não estava ali, falando com ela, olhando pra ela, fantasiando com ela, você apenas perguntou pra ela, 'mas e a sua amiga'.

Todos assuntos deram certo, todos conhecidos dos conhecidos bateram, todas impressões deram certo, assuntos aleatórios deram certo, a atração deu certo, mas no final, quando tudo dá certo, é porque ainda não é o final.

Inversão subversiva do dito popular: fiz tudo errado, mas deu certo.

E concluo.

Tuesday, October 16, 2012



Vou estalar os dedos 47 vezes, deitar com meu chapéu e olhar pro teto: o ventilador espalha o ar e minha garganta se delicia com um gole de bourbon,.

A brisa está boa, o ar está seco, como minha pele e toda a superfície que se desprende, por onde andamos nesses ultimos meses do ano, se bem me lembro já estivemos por aqui, ou talvez não, minhas memórias as vezes se confudem, talvez seja o verão chegando. Outro dia estava andando e cai. Estava andando e cai, simples assim, estranho, não? Você já sentiu uma queda iminente? Andou e caiu?

Bom (coça cabeça), onde estávamos mesmo? A ultima coisa que lembro foi do bacalhau, estava gostoso, ninguém gosta de óleo de bacalhau, eu como como ninguém, você sempre diz isso, mesmo sem me contar, vejo nos seus olhos. Depois você sai com aquele sorriso excitado, sabendo de qualquer coisa que me escapa, quem se importa? Você sempre vai embora, mas uma hora tem vontade de voltar e dizer oi, e aí, legal te ver, tal. E vem, vai,...

Gosto do fato do malte viscoso quebrar o gelo, se misturar a pedra derretida e deixar meu paladar amarelado, sinto até seu cheiro e misturo uma coisa com a outra, bem que te disse.

Ouve só:

There's a winner in every place
There's a heart that's beating in every page
The beginning of it starts at the end
When it's time to walk away and start over again

No more rain, no more roses
On my way, shake my thirst in a cool cool pond

...

Não sei porque, nasci mágico, bom de carteado, dedos habilidosos e aprendi cedo, é preciso saber tirar proveito da vida, sentir o gosto das coisas que apetecem antes que se perca o paladar. Gosto de adivinhação, dos sentidos e músicas, imagens por palavras.

Dorme bem.

(e sonha comigo).

...

youseffmonkey




Saturday, October 13, 2012




Debaixo do guarda-chuva, espremidos, em frente ao cinema, tapando os rostos, um casal se pegando:  escondidos sob a fina garoa, algo por trás do ato descabeçado.

...

Rua Augusta, descendente, bebendo num boteco fajuto sob o testemunho dos passantes que pediam trocados para biritas, cigarros dum maço acabado e um pouco de atenção e dignidade, nós dois.

Rua Augusta, descendo em direção ao Inferno, um carro preto com um cartaz no para-brisas 'batida', uma mão que remove o cartaz e risadas, 'vamos colocar noutro lugar', até que alguém aparece enfurecido dizendo para deixar o cartaz onde estava. Impressionados e sob efeito de algumas risadas etílicas, o cartaz é deixado por lá. A descida continua, parados em frente a um lindo hotel de luz roxa  tiram uma foto, 'aqui nos casamos' e seguem de braços dados, cruzam a rua de um lado pro outro e um carro preto, com porta malas abertos passa reto ente a vista, mais risadas, regridem quinze passos pra trás e averiguam, 'batidas: um porta mala aberto, um isopor cheio de gelo e um casal com um cara bravo que acabou de pedir pra que deixassem o cartaz no lugar. A vida é literal, naquela esquina.

Ignorando maiores detalhes de todo resto, chegam ao vão livre da avenida Paulista e dividem espaço com veados, moleques, moradores de rua e os ratos atravessando a mureta coberta de plantas, mobiletes de plástico e uma floresta, lá brisam, discutem arquitetura, filosofam sobre o vão do museu e sua falta de colunas centrais torcendo para um skatista-vulto cair no chão para rirem mais um pouco, algo que não aconteceu, ele confessa seu sonho de fazer um clipe na cobertura e não me lembra mais o quê. 'Vamos embora, não posso mais...'.

...

Caminhando sob a avenida debaixo da fina garoa, etílicos e brisados, param sob um ponto qualquer, é preciso chamar um taxi e acabar com isso de uma vez por todas, e assim será. Prontamente, 4h da madrugada, debaixo do guarda-chuva, espremidos, em frente ao cinema, tapando os rostos, um casal se pegando:  escondidos sob a fina garoa, algo por trás do ato descabeçado.

Friday, October 12, 2012



Glória,

O porquê não interessa,
interessa interessar-se 

Despir-se, despertar,
vestir-se, pontuar

Um dia numa noite,
uma noite noutro dia

Confundir-se, 
ser, estar,
permanecer, restar,
dentro do outro
no oco
que escapa por meio
de nós:

se masculino ou feminino,
terno e gravata,
azul ou vermelho,

Somos todos um,
perpétua dúvida, satisfação,
amor, dor, rima que 
combina, nova, ínfima, 
digna do silêncio que povoa a existência
fulgaz,
singela, 
bela,
misteriosa e inconclusiva,
que nos desperta e repousa continuamente 
até que a morte separe, e (re)una,
numa dimensão poética,
as palavras que significam
flores amarelas sob a terra úmida.

Do seu, Genivaldo

[Mosaico Francês - Histórias da Guerra, 1943. Editora SansBri, autor desconhecido]






Sunday, October 07, 2012




Sabe que é, são sei lá que horas da madrugada e a ultima lembrança que eu tenho é você entrando nesse apartamento e eu acendendo as luzes; ao acender a luz sozinho, lembrei de você. Resolvi olhar suas fotografias e senti uma ponta de ciúmes daquele babaca que costumeiramente divide o espaço com você no quadro. Vejo nele um sorriso que eu já senti, vejo em seus olhos uma expressão de leveza, invejo ele na foto que nunca tiramos e sei o quanto é bom te amar quando estamos ali, transcendendo qualquer dúvida ou pensamento que se entreponha, são e salvos.

Me perco em seu sorriso, desejo seu corpo, seu busto e suas pernas, e tudo que posso fazer é lamentar sua falta, despedaçado e te querendo  mais que tudo, um dia que não chega, e não passa, até que volte e  novamente se instale aqui. Você não se aquieta, desafiando toda fragilidade no peito consigo mesma, e na indiferença entre um e outro, transgredindo as incompreensões que apenas se traduzem numa tola explicação.

...

Posso sonhar, transformar o porvir e alimentar minhas razões ilógicas, mas

FODA-SE.

Como uma sombra que escapa pela parede, como um assovio, como um respiro de alívio, como um trompete safado, com merda nenhuma, como uma falta que me faz, você se esvai e eu desperto num outro dia: passou, mas não passou, passou, mas nunca passará (disso. disso tudo. Isso. Isso, tudo).



Wednesday, October 03, 2012





Oh! Darjeeling

Já não consigo desembaralhar o carteado colorido, desfazer seu nome em mil pedaços,
fazer juras de amor ou querer que desapareça como registro desnecessário.

Sei lá que me dá, essa noite,
ao pensar em distância, proximidade,
certeza, perdição, 
não penso em nada com sua cabeça apoiada em meu ombro, agradada,
mergulhada num mar de prazer.

Se um dia quis te deter mil e uma noites e te transformar no que queria,
tal como se fosse igual, mas diferente, 
Se um dia tivessemos sido tintos, ou azuis, 
e um triângulo contasse até nove e me pedisse que fosse diferente,
eu nunca teria sido outra coisa.

Não existe grandeza maior pra um coração quente que a possibilidade de se levar
pelo mundo, pelo que se avista, pelos desejos, por tudo que diz respeito ao encanto de desconhecer o final,
mesmo sabendo que uma hora vai acabar, e nunca é tão bom quando acaba, mas quando começa e recomeça e segue.

Melhor deixar ser, estar, e o que um dia foi consolo, vira sorriso, 
e mesmo não querendo ser vítima dos próprios anseios, seja, 
e viva, cheia de si, porque tudo muda quando sopra o vento
a mando do tempo:

destino.