Wednesday, July 25, 2012














Móveis velhos.

Restos de pó.

Poeira em estado bruto. Talvez eu esteja sozinho, se aproxime.

Soltei todas as teclas e fui limpando. Todos caracteres embaralhados num quebra cabeças indecifrável, quem se importa?

Talvez eu esteja sozinho, se aproxime.

Juntei toda poeira e separei em cabelos, pelos e fragmentos humanos em uma calça suja. Fragmentos biológicos, restos de drogas e pensamentos soltos. Tudo enrolado. Restos meus e seus, restos deles, delas, das aventuras que carrego, uma longa reta pela frente, se aproxime.

Componho com uma série de rostos, expressões de susto, sorrisos mudos e lágrimas, mudas de plantas e botões a florescer, talvez eu esteja perdido num mar de pensamentos, buscando mudar a direção da maré e controlar a força das ondas, a terra se locomove. Um espaço desordenado, outro perfeitamente seguro de si, regido sob as leis do universo. Descanse. Descanse porque amanhã tem mais, nuvens. 

...

Vôo pra cá e pra lá me deslocando como um pássaro. Carrego meu peso arrastado, como serpente e empino sob os raios e tempestades, trovões que estouram meu ser nas pedras e chocam tantas verdades, um cavalo guiado por lampejos de braveza que o fazem desejar sempre mais, cortando a floresta desconhecida pra um dia saber o porque.

...

O tempo passa. O mundo gira. O tempo vira,  a vida para. O mundo gira, a vida anda. Separei os fragmentos de tudo, como antes costumavam fazer outras mãos ao longo do tempo, pensei em alguma coisa e soube o que queria daquilo tudo. Mesmo o gelo estava em pedaços, era tudo que havia. Eu lhe disse pouco mais de duas palavras, queria outra coisa, talvez algo que nunca tive, ou terei novamente.Não funciona desse jeito. O gelo derreteu, a garganta
mais quente e o peito calejado, um talho no meio, talvez um dia cicatrize, já está em processo, mas hoje eu carrego poeira, restos de pó, de mim, de você, de histórias, de repentes, de saudades, de tanta coisa, do seu cheiro, que já não é o seu cheiro e de outras histórias. 

Talvez eu esteja perdido.

…

O vento que sopra há de trazer mais surpresa, e soprar a poeira, nos fazer sorrir ao acordar num outro dia. Enquanto as letras se embaralham e o tempo passa, e seu gosto volta, e suas palas também, é sempre a mesma história de um outro jeito, sabemos pelo que buscar. Um sintoma que confirma a tese, tal qual uma estrada pela frente trás riscos, e pelo espelho outras histórias, nunca sabemos exatamente qual nossa localização nisso tudo, se ela existe.

Talvez estejamos perdidos.

…

Meu peito calou, o tempo estorou,

rosas caidas, raízes rachadas,

pedras que testemunham sob o sol de um deserto o estalar duma pedra de gelo, o líquido viscoso e amarelado descendo goela abaixo, um soluço mudo com tantos gritos, é preciso soltar o silêncio apavorado, agarrado a tudo que vivemos com o peito batendo receoso, a incerteza que dói, cala e desliza face abaixo. Talvez um dia inventem algo pra conter as lágrimas como pra cortar o apetite e eliminar as doenças, talvez nos aproximemos ainda mais das máquinas, talvez possamos eliminar todas as falhas de conduta e caráter, então deixaremos de sentir a coçega dolorosa que causa a lágrima delizando face abaixo, aliviando um pouco da alta porcentagem líquida e volátil que carregamos num ser de corpo frágil, débil, humano e falho, sujeito a doenças e emoções de todos os tipos. Migraremos, logo, para outro lugar, outra idéia, forma de pensamento, experimento do universo, estrela, pedra, fragmento, poeira, cinza, sedimento, brilho ou qualquer forma de existência. Por hora secamos, nos desfazendo em restos e esperando por um ar, sopro.

...

Talvez eu esteja sozinho, talvez eu esteja muito sozinho, se aproxime. Existe tanta gente, tantos segredos, você sabe disso. A cidade é maluca e ninguém está nem aí, talvez eu esteja sozinho, talvez eu esteja muito sozinho, se aproxime, você sabe disso. 

...

Eu estou apagando e você não se dá conta,

está tudo em sua cabeça, e na minha,

mas é tempo de dizer adeus, 

...

maré nova.

...

satélite.

...

galope

...

baseado em fatos reais, romanceados e narrados sob uma perspectiva de quem observa a própria vida sem tomar posse e propriedade de sua real natureza. sob os olhos descrentes de quem espera complacência. sob a propriedade de quem sabe o que diz e paga o preço por suas escolhas. sob escombros, ruinas e incertezas. sob esperança na chuva, guarda e capa, botas, londres nas olimpíadas e o vento cortante do topo do prédio. sob onde tocam os rapazes da cidade vizinha e atravessam a rua pedestres descalços, sem havaianas, sem sorrisos, sem pagode, sem familiaridade com a cartografia afetiva urbana. sob sinos.

...

é tempo de mudanças e já veremos pra onde o vento sopra.

...


Monday, July 16, 2012




O fb virou orkut, feito previsível. As pessoas [maioria] continuam idiotas, isso nunca muda [ao longo da história]. Alguns dias você chuta pedra, outros olha pro alto. Um dia você compra um saquinho com comida e conservante, outro dia tira a comida do chão, lava e manda pra dentro. Um dia come boi, outro dia não. Um dia ouve música, noutro, outra. E assim por diante.

Todo mundo sempre tem algo a dizer, algo a mostrar, todos se mostram porque tem algo a dizer, feito irrelevante. E talvez tudo seja irrelevante, de fato a maioria das pessoas abre a boca antes de abrir os olhos, ou levantar as orelhas, ou mesmo tatear a parede. A parede pode te dizer muita coisa interessante, as pedras também, como as estrelas. Mas ninguém quer saber, parar pra escutar essas coisas efêmeras como o vento soprando, o sol entrando, o pé no chão, tudo tão pouco.

Não estou sendo hedonista, conheço o peso do chumbo diário, mas sempre os guarda-chuvas e harpas com chuva fictícia são mais bonitos, tudo no cinema é mais bonito. Mas, por trás dele existe um projetor, um projeto, um projetante e muitos projéteis: compreenda, o projetor projeta uma imagem numa superfície, as vezes a projeção é bonita, outras dissonante e, qual seja a reação da superfície projetada, outras reações se projetam e proliferam a vida, que se projeta e se introjeta no que toca, sua forma continua de continuar, se perpetuar e, efetivamente, durar - Ad eternum, inércia - até acabar.

Vir[a][á] vinil. , nitrato de prata. ,página. pó. cinza. terra úmida que alimenta os microorganismos que povoam o organismo e se proliferam, etc.

Amigos, a vida é uma praga, e só.

A terra, cheia de parasitas, provedora maior.

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Mas, e a morte?

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ocidente
afrente:
- volver!

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Thursday, July 12, 2012



Os dois elevadores panorâmicos sobem e descem piscando uma luz amarelada. Está frio, o ar úmido, as pessoas - bem vestidas e agasalhadas - caminham com alguma pressa, é fim de dia, um dia sem luz, e elas devem estar indo pra casa. Eu não. Entro no ônibus, sento na parte da frente e coloco uma música triste, todo um disco com esse tom invernal, meu peito está seco como os galhos das árvores retorcidos em frente ao parque.

Começo a pensar olhando a rua pela janela, o ônibus atravessa a avenida rapidamente, uma cena cotidiana, mas sempre há surpresas e a de hoje foi não haver nada extraordinário, de fato estamos no inverno. Penso num punhado de gente, separo alguns nomes de cabeça e fico de ligar, ainda assim, não paro de pensar no que me aflige e continuo encarando a avenida pela janela.

'Não há esperança, não há esperança, não há esperança', a frase ecoando na minha cabeça. Escuto música, penso na frase e, pura coincidência, encontro um vizinho quase no ponto em que desço, começamos a conversar e ele me pergunta se estou tocando muito, estou. Ele me perguntando se fazemos jazz estilo NY, New Orleans ou Chicago, queria dizer que não era nada disso, mas digo NY porque tenho vontade de ir pra cidade. Ele segue fazendo perguntas, algumas boas e explico pra ela os limites da nossa cena musical. Chegamos a porta do prédio, ele sobe um lance de escada e se despede, eu sigo até o final do corredor, abro a porta e olho pro piano - silêncio - não há nada a dizer.