Thursday, June 15, 2017




Estou morrendo de sono, mas meus dedos estão inquietos.
Quero começar um poema, como se começa um poema?
Uma memória me diz que devo seguir seu rastro, mas é uma lembrança que dói. Dói no osso.

Pra começar o poema eu preciso olhar pra dentro, colocar a mão na consciência e prestar atenção no tempo-


Passam-se alguns instantes até eu perceber que não fui muito longe, talvez o poema se distancie.

O corpo continua doendo. Naquele desânimo de dias que estamos cansados e uma marca roxa aparece debaixo do olho pra atestar no físico o que dizemos pra nós mesmos no etéreo.

Você se sente dolorido, afirma, diz que está cansado e seu corpo cria uma marca proveniente dessa razão. Talvez essa seja a forma que as marcas vão se acumulando, o corpo conversa com a alma, a mente e o espírito e decidem, juntos, criar uma marca no corpo, afinal é nossa geografia encarnada, o corpo.

E com ele doendo, marcado por essa dor, sigo em frente, querendo somente fechar os olhos, voltar pra cama, ignorar a conversa que tenho que ter, a decisão que tenho que tomar, a perspectiva que tenho que encarar- toda essa soma sem divisão- e fazer um poema.

Devo tomar um café ou voltar pra cama?
Devo fumar um cigarro, meditar ou ajustar a antena?
Devo escrever, tocar piano, ou viajar de carona?

((((Certo seria encarar o incômodo na vã tentativa de fazer o poema que me livrasse do cansaço, da tristeza, da marca, do fracasso)))).

Pudesse escolher o poema e tirá-lo da terra como se colhem plantas no jardim e seria feliz. Daria-se uma nova perspectiva transpassada essa dor de osso, desfolhando a passagem da vida por um momento azul; o mundo teria cheiro de manjericão roxo esverdeado e mantas de seda alaranjadas, paredes diamante purpura e colunas douradas espalhadas na rua, imagens de adoração a um santo inconteste, iluminação pra vida daqueles que, procurando um poema, se deparariam com luz, enchendo-se de força e ânimo numa vibração que aniquilaria a condição de corpo cansado buscando refúgio em palavras que não podem traduzir o soluço relutante do peito que não sabe bem o que fazer. Do poema. Da vida. Da escolha. Da dor. Das palavras. Da poesia. Do poeta.



Tuesday, June 13, 2017




A cara feia você já não sabe porque.

Porque fez isso?
Porque reagiu assim?
Porque não se acalmou?
Porque não tomou outra ação?

....

Seres humanos se condicionam. Acostumam suas (re)ações. Antes mesmo de julgar, reproduzem um comportamento. [[[Que já sofreram. Ou viram. Ou fizeram. Ou]]]. Depois pensam que poderia ser diferente. E talvez sintam-se arrependidos. Culpados. Preocupados. Inseguros. Incertos quanto a decisão. Um momento e clique depois, gatilho.

....

As relações mudam o Homem. Os Homens mudam as relações. Algumas perduram, outras perdem-se com o tempo. Pelo tempo. Em algum lugar num instante armazenado numa pequena caixa de histórias que se acumulam e somam, ora dialogando, ora ignorando as páginas vizinhas empilhadas.

Algumas perdem sentido momentâneo e depois retornam cheias de fúrias, outras, como por inércia, se arrastam, desgastam e se desmancham até sobrar nada, ainda assim, resistem e seguem, sem a determinação exata de um porque. Algumas são puramente sem importância. Outras gritam em desespero esperando pra serem resgatadas e re-olhadas, re-vistas, re-contadas. Outras nunca deixam de aparecer. E assim por diante, a vida se faz e dilui em instantes.

....

A mente de um homem se perde dentro de suas razões e sentimentos. A mente se perde tentando encontrar um ponto, um foco, uma luz, uma organização, mesmo no breu. Sabe-se lá porque vagueia tanto essa mente do Homem sem nunca deter-se num ponto fixo pra além do momento sublime, da descoberta-eureka onde tudo faz sentido por um breve segundo e num mal súbito desaparece. instante, clique, gatilho.

....

[[[[ou numa falha grotesca
que faz um breve segundo perdurar e se transformar numa eterna agonia]]].

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Realizar, realizar-se, materializar, sonhar, desejar, desvirtuar as virtudes de governança e organização. Manter-se à parte do todo. De tudo. Ou inserir-se na sociedade, nas rodas, nos grupos, nas discussões e politicagens. Existem letras que nasceram para ser homens e homens que nasceram para ser mudos, (in)ventam. Mas a invenção de verso não desfaz a falta sublime do cobertor, do sino da garganta, do apito do ouvido. Trêmula bandeira no mastro que indica uma direção mesmo sem saber qual sua razão. Nunca lhe perguntaram pra onde gostaria de apontar, caso pudesse. Caso fosse sua própria razão. Apenas aponta pro que lhe toca, sem se deixar tocar.

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OUTRO

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Recortei um jornal com as mãos cheias de fúria. O corpo em cólera. Tomado por ódio.
Todo sentimento fervia e a boca, cheio de palavrões, cuspia no mundo insatisfação.
Tudo porque não sabia bem. O que queria. Queria, sabia, que todos se fodessem.
Uma vez fodidos e talvez o sentimento passasse. Pensou de relance que na verdade
todos já estão fodidos, mais fundo, 'estamos' fodidos. Colocou sua primeira pessoa no
coletivo, esse mesmo que ele picotava com a tesoura como se fosse um corpo, e pensou
que estaria no meio daquele papel jornal vermelho de sangue, nas fotos, notícias, publicidade
ou escritos. Não tinha certeza. Espumava de ódio, sentia um gosto de ferrugem e sal na boca,
as mãos como se espremessem vidro e a cólera espiritual dilacerada partindo pra outro lugar. Quando olhou, não tinha mais camiseta, era um corpo de jornal manchado de tinta vermelha e seu próprio ódio apunhalava o corpo levando a vida embora. Afinal, puto, se fodeu. Fodeu com o mundo. Fodeu com tudo. Não gozou. Não se sentiu mais aliviado. Nada disso. Apenas fodeu com mais um dia
até que pudesse se deitar e abrir novamente os olhos, quem sabe, vazio de significado.

.....

Abstrato, abstraio.
Retumbante fracasso todo aquele desejo que lentamente esculpi entre juventude e adolescência.
Tudo que foi, veio, passou e não se deteve. Tudo que projetei e escapou pelos dedos. Tudo que
desejei e nunca pude colher. Talvez tenha sido erro de plantação, manutenção, execução, um pouco
de cada numa proporção que não cabe na definição de palavras, mas surge num piscar de olhos e
permanece queimando a vista preso na retina coberto de rotina rondando a esquina.
Sei lá. Essas rimas. Que atormentam e desafiam e me questionam: qual o sentido?
Pensando na minha pica, um foda, um corpo feminino, no peito, na boca e na boceta, no gozo suado e na respiração aliviada duma tarde chuvosa olhando pela janela desejando estar com a cabeça vazia. Cheia de idéias, coço impaciente e falta controle, decido ir pro boteco acender um cigarro pra foder com minha vida, que descompasso. O corpo físico que briga com o mental que só cumprimenta o espírito que demanda a energia que resultada nessa confusão de linhas mal escritas em que você passeia com meus olhos. Seus olhos. Nossos olhos. Em ordem desordenada. Da direita pra esquerda, -------, da esquerda pra direita e de cima pra baixo, flutuando por uma mente desnuda, abusada e sem pudor.

......

Quem nunca andou pelado?

......

Gênio oculto, oculto genial genioso, desaparecimento primoroso
mar de rostos espalhados pelos espelhos, desejos retumbantes
que aparecem na capa, no vidro, no reflexo, expectativa de um ser querido
ser querido por todos

Mesmo sem saber se o que mais vale é ser visto ou poder ver
o ser oculto se esconde dentro dum ser
e você
mesmo que não saibas porque
mesmo que não pareça teu ser
mesmo que não o veja, te vês

Óbvia galáxia periférica do universo trancado no fosso
buraco negro ou calabouço
dessa escuridão toda não se sai sem esforço
estamos na terra. 2017.

Ser oculto, esse gênio permanente existe em seus olhos inexistentes
mesmo que não o reconheça no mérito criador, mestre da serpente


resistente,

Deus está aí.

.....

CONCLUO. E por fim.

Tentei dialogar com uma inabilidade tremenda. É um grau meu. Ser inábil socialmente.
Talvez como imitação de pai e mãe. Talvez como reconhecimento sutil que bate tardio.
Talvez como àquilo que não temos, nunca teremos e desejamos.
Por isso, singularmente considero-me gênio desaparecido. Por gênio,
genes criadores que tenho em singularidade plural, como todo e qualquer Homem.
Mas, desaparecido no mar da rede, rede no mar não pega peixe que se esconde. Como nas cavernas do Himalaia não pegam antenas, pese suas ondas se conectarem e perpetuarem no mundo. É preciso se perder para encontrar. Aqui agora hoje finalmente me encontrei com contemporâneos que valem registro, ou parecem valer. Talvez não mais deseje sumir, mas reaparecer.
Anos atrás encontrei desencontrados que reconheço, admiro e prospero com sua cia silenciosa. Nunca estou são, nunca estamos sós. Esses novos, já, são tão silenciosos quanto minha inexistência em vossas percepções. Quem sabe eu tente contato. Com eles. Com o mundo. Com isso tudo.
Deixa ser, deixa estar, vou pra rede balançar.

.......