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Ela é esquisita, um ponto fora da linguagem. Da minha linguagem. Ela tem o cabelo meio raspado, já não tem, ela fica trocando de roupa e sendo uma personagem, e outra, outras tantas. Ela lê o texto devagar, e rápido, ela alterna os tempos e parece uma portuguesinha falando (gosto de ginja e de lisboa). Ela tira a roupa, eu enlouqueço, ela põe a roupa, eu enlouqueço, eu olho pra ela, eu enlouqueço, e ela não entende nada, talvez porque não me veja. Não, ela nem sabe de mim, que estou aqui a procurá-la nem sei bem onde, nem sei porque, ela ignora que fico tentado a descobrir se ela vai aparecer,e eu já quase pergunto diretamente pra quem sabe, mesmo sabendo que é uma idéia de merda- Foda-se. Eu nem sei se ela é sozinha, gosta de alguém, gosta de homens, ela tem cara de gostar de problemas, é, tem mesmo e eu gosto de garotas assim, mesmo sabendo que sou meio bronco, e não deveria gostar. Talvez eu goste mesmo dos problemas e por isso me coço, não sei ser de outra forma e nem devo ter muito interesse em saber, deixa pra lá.
Ela entrou com aquele batom vermelho, meio magra, magra e macia com uma camiseta cortada do sonic youth e pensei quem diabos era ela, ali, entrando, só consegui saber seu nome e depois empolgamos alguns grupos com a apresentação, sabe, ela ali e eu queria era me aproximar, mas não deu, tive que focar no que tinha que focar, sabe? Não, não, e daí essa merda toda, essas afirmações não nos trazem a satisfação que buscamos, que diabos, um monte de gente ciscando e eu lá, nela: sei lá. É, um papo de palerma, mas não importa, todos precisamos disso em alguma medida, seja combatendo a solidão, na busca por afeto, ou algo assim, somos produto-palerma em muitas medidas.
Ela segura o rosto, passa a mão no cabelo, parece atriz. Ela tem as mãos finas, bonitas, e rói a unha. Ela passa pincel no rosto e fica maquiada. Ela põe o sapato, tem uns pés bonitos, gosto. Sei lá, acho que hoje vou no teatro. Ela passa o batom e diz que vamos descobrir alguma coisa. Não sei se vou, está chovendo. Ela é divertida, mostra a orelha, que engraçado. Depois mostra o joelho, eu um sorriso. E assim vai, agora ela está andando e foi promovida a garota com o mais fino humor nesse segundo, só porque anda, e sabe fazer isso como ninguém (carregando meu olhar no movimento, se você não entendeu). Agora ela pula, mas já não é tão engraçado. Ela é artista atriz e ladra de estética e de personalidades e referências, todos somos. Agora eu olho pra mim, olho e não vejo nada que me agrade, penso que sou muito chato, incompreensível, analítico. Então ela se joga, se espatifa, faz muito barulho e, de repente, se deita: deita calmamente com um vestido branco, sinto seu cheiro de flores brancas como se estivesse aqui, do meu lado, jasmim nesse vazio que grita, mas ela nem sabe... Nem sabe disso, de mim, do meu olhar, do meu cheiro, do meu corpo, do meu som, de porra nenhuma, nem uma idéia de quem eu seja, exista, ou qualquer coisa que escape. Nada.
- Sim, ela está aqui.
- Quem é ela?
- O que pode fazer?
- O que quer?
- Porque se move assim?
- Como se move assim?
- Olhe pra ela. Olhe pra ela agora. Agora a música acabou. Não tem mais música.
Ela é esquisita, um ponto fora da linguagem. Da minha linguagem.
Ela é chata. Insuportável. Ególatra. Exibida. Tudo que quiser que seja, e desagrade. Todos defeitos que eu julgar necessário e quiser por, projeção do que listo, incomoda e não é digno de lisonjeio.
Ela é esquisita, um ponto fora da linguagem. Da minha linguagem.
Ela é quente, macia, gostosa. Linda, delirante, lunática, impiedosa. Ela é tudo isso, e me perco.
Ela é tudo o falta, e sempre faltará. Ela me completa, e sempre será dessa forma. Ela não cabe em definições, talvez porque não as tenha. Ela passa longe da ótica da obviedade, traduz o que escapa. Ela. Será Ela?
Acho que vou ao teatro, está chovendo, eis a surpresa final: a escova de dente, as bolhas de fluor e tudo que eu buscava, não há explicação.
Talvez seja o pequeno ponto branco no centro do seu coração, o anel branco do lado preto do casaco que ela ignora o significado, eu sei.
(e ela ainda nem conhece).
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