Thursday, October 06, 2011



/////calado [ivory towers]

Quando finalmente chegar à algum lugar e testemunhar a morte, tudo volta, revolta, trás de volta e leva os resquiços na certeza de que uma fase terminou: uma vida: um relacionamento: uma escolha.
Quando tudo finalmente morre e você revive, trazido de volta a superfície do rio, suas margens são fonte de esperanças e reencontros simbólicos com a água que um dia, translucida, você sujou com o barro dessa botina: água mexida, pó na retina, adeus à transparência que havia. Porém, demovida de resquiços passageiros e permitindo mergulho, ao trazer a cabeça de volta para fora, esteja certo de presenciar um segundo em toda intensidade: um momento que se faz, e desfaz, enquanto piscam os olhos piscam: não há morte, nem vida.
Entre um e outro, abismo. Entre um e outro, elo. Entre dois o eco dos ferimentos, mote poderoso: [gritando ou silencioso] chegamos ao fim? E tudo volta, revolta, trás de volta, leve soluço.
Uma noite de peito apertado, pude chorar. Pude finalmente chorar e não me furtei de sentir a dor de cada lágrima que caia, tamanha lucidez, e, meditando para a dor, compreendi sua força destruidora e renovadora. Enquanto agonizam os contemporâneos pedindo pílulas tarja preta, lembro do quanto quero e preciso chorar como carga simbólica e afetiva do luto manifesto: carregar a dor é dar correta dimensão ao presente, vivenciar a intensidade da perda e superar os resquiços da fase que determinou tal recorte, chegar ao fim enquanto os olhos piscam - os seus e os deles. Não há vida na morte.
Não digo nada, sinto sinos, bate o vento e assopra o aparato oriental, coração de metal n'ouvido, lucidez aguda, um sentir-se embrigado de todos destinos afrontados como quebra-cabeças.
Posso escrever, posso sentir, posso cantar e romper com tudo que foi como foi, assim faleceu e assim fenece. Posso enfrentar esses temores mesmo com as incertezas do porvir e seguir em frente, encaminhar-se é rumar, rumar, condição: nada mais se furta na solidão de bastar-se em si mesmo, já não é o bastante para seguir. Não há morte, nem vida.
Parede refinada, túmulo dos não-ditos, monumento a mú: rarefeito sentimento, sobrevôo de pardal, te escuto, pode falar que enquanto isso, pressinto.

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Uma orquídia amarela que floresce uma vez por ano, a pétala caída sobre o preto piano alemão. É primavera.

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Em meio as teclas de marfim e antebraços de madeira, havia um tanto de poeira e uma corrente de primeira, ouro puro caído do pulso. Outro dia um pianista des pedaço de ko ´rente rompida carregada no im pulso,
fui achá-la numa faxina em meio a carcaças de insetos refugiados e poeira ancestrais, reformei o piano desmontando, entendendo, sabendo,
que foi como um presente por tudo: longínquo laçotraço dos tempos distintos no mesmo objeto.

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sobre a madeira escura. sobre a matéria escura. sobre um brilho dourado.