Sunday, August 11, 2013



Componho sobre a tristeza,
da alegria, já não sei.

Sopro de duração maior,
brisa triste que assovia,

o som do apito, agudo, ruído,

o som do pingo que bate na pia.

Coço o cabelo, os olhos tristes e vagos
na ponta do dedo que toca o pelo:

um idéia do que quer que seja e não chega.

A tristeza se esvai num suspiro, numa memória de um grito,
rio abaixo no centro do peito, palpite de dentro, água agitada,
caída, empoçando o chão.

Compor sobre a alegria já não sei, essa que sorri e se reconhece
no objeto de afeição, que se encanta com o sol na praia e no
pelo oriçado da menina de biquini, na pipa de vôo azul
esverdeado, na pelota que atravessa o ângulo da gigante caixa
de fósforo improvisada na areia, ao lado do brinco que caiu,
perolado.

Sobre a tristeza já digo, presença, saudade da tarde,
esse poeta que um dia ficou rabiscado, no caderno, abert(o)(a),
essa ferida ardida de sal e poeira, vidro e areia, esses acidentes
feios que rolam na estrada e cruzam pedágio, os chapas
discorrendo da vida em som e imagem, a medida da
consciência agindo no próprio saber, as certezas ruindo no ar,
repercutindo no ponto fora do oceano de pano sob o qual
repousamos a cabeça e, durante a noite, libertamos a
sombra, luz oposta da própria presença,
uma estátua da Brigitte Bardot.

::

Somos como somos e todo tempo atravessamos -
o que vemos e deixamos de ver
o que fomos e deixamos de ser
a forma que se transforma e se revela,
nu despertar.