Sunday, April 01, 2012



Ela disse que era atriz, eu, carioca. Ela tinha olhos negros de amêndoa, abriu o espelho e passou um batom bem vermelho, encostou em mim. Nos encaramos, ela me beijou (ou eu a beijei). Ela usava um vestido curto e florido, la flaca. Fiquei encarando seu rosto como se fosse um amor pra toda vida, não era, apenas outra noite. Amanhecia e a vista daquela cobertura era linda, Recife em seu esplendor, rios, pontes, mares, meninas ainda mais bonitas na luz do sol, não há maquiagem borrada ou recalques típicos da ríspida aridez paulistana que não se desfaça num sorriso fácil. Todos sorriem fácil, uma leveza desconhecida em meio ao gris, a beleza é simples.


Na periferia as mulheres acreditam muito em deus e nas Celebridades. Em seu íntimo desejam ter a vida com a qual não foram agraciadas e usam cremes e maquiagens de todos tipos para conquistar seus pares, tem filhos cedo e perdem parentes próximos com uma naturalidade quase causal, deus dá, deus tira.Talvez elas tenham razão, nomeando a estância da maneira que crêem mais adequada. Queria saber se existe algo fora da periferia, se me faço entender. ?

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É preciso acreditar em algo, sempre


Frisei que ela se parecia com a Penélope Cruz, ela ficou orgulhosa, disse que só treparia com uma mulher se fosse Penélope. Era linda, ela, Natália, a menina de uma noite em Recife. Estávamos bêbados, só melhorou, amei-a como se fosse minha ultima noite no mundo e, de repente, dissemos tchau e nunca mais nos veremos. Nem quero. Sonhos servem pra ficar guardados difusos, tudo que o cotidiano - e os meios digitais - estragam, a memória aprimora. 

Nem sempre, mas cabe aqui. 
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Cansado, virado, lamentei estar sem câmera olhando praquela cidade, mas meus olhos se lembrarão da luz, do escuro e do amanhecer de Boa Viagem. Das nuvens e do céu mudando de cor. Da poesia já no nome, das meninas bonitas.



Grilo, seu par e dois amigos no frontal, série de botecos de guerrilha que fazem frente ao central, bar dos artistas, arteiros e cultos. Disseram sermos os outros, putos. E os putos discutiram sobre o universo, astronomia, astrologia, música, filhos e muitas coisas que não me lembro. Sobretudo sobretempo e sobre o tempo. A vida é linda, a vida é curta, não sejam bestas, não percam tempo, liguem-se as pequenas coisas e tenham histórias para contar. Como dizem, um dia você viverá de suas memórias, faça uso do cotidiano para construí-las e aproveite, passa rápido (e você não precisa ser velho pra ter essa consciência).

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E sonharei com aqueles olhinhos que nunca mais verei - essa dor é boa.

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