Thursday, July 12, 2012
Os dois elevadores panorâmicos sobem e descem piscando uma luz amarelada. Está frio, o ar úmido, as pessoas - bem vestidas e agasalhadas - caminham com alguma pressa, é fim de dia, um dia sem luz, e elas devem estar indo pra casa. Eu não. Entro no ônibus, sento na parte da frente e coloco uma música triste, todo um disco com esse tom invernal, meu peito está seco como os galhos das árvores retorcidos em frente ao parque.
Começo a pensar olhando a rua pela janela, o ônibus atravessa a avenida rapidamente, uma cena cotidiana, mas sempre há surpresas e a de hoje foi não haver nada extraordinário, de fato estamos no inverno. Penso num punhado de gente, separo alguns nomes de cabeça e fico de ligar, ainda assim, não paro de pensar no que me aflige e continuo encarando a avenida pela janela.
'Não há esperança, não há esperança, não há esperança', a frase ecoando na minha cabeça. Escuto música, penso na frase e, pura coincidência, encontro um vizinho quase no ponto em que desço, começamos a conversar e ele me pergunta se estou tocando muito, estou. Ele me perguntando se fazemos jazz estilo NY, New Orleans ou Chicago, queria dizer que não era nada disso, mas digo NY porque tenho vontade de ir pra cidade. Ele segue fazendo perguntas, algumas boas e explico pra ela os limites da nossa cena musical. Chegamos a porta do prédio, ele sobe um lance de escada e se despede, eu sigo até o final do corredor, abro a porta e olho pro piano - silêncio - não há nada a dizer.
