Tuesday, February 14, 2012
Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem apreciar ir as origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando um infante. (...) Quem é quando criança a natureza nos mistura com as suas árvores, com as suas águas, com o olho azul do céu. Por tudo isso que eu não gostasse de botar data na existência. Porque o tempo não anda pra trás. Ele só andasse pra trás botando a palavra quando de suporte.
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Tempo - de Manuel de Barros - Memórias Inventadas (imagem: Martha Barros)
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Um livro essencial pra vida [e que eu poderia tentar descrever usando miliadjetivos enaltecedores, mas isso de nada serviria, serve você ler, faz bem pra alma, esse negócio que não sei o quê é, onde está ou precisamente pra que serve, mas faz bem].
